Terras do Caramulo

As capuchas de burel do Caramulo (Malhapão de Cima)

De facto não é só no Caramulo que se vêem as capuchas de burel a cobrir os ombros das gentes da montanha, para um abrigo no seu dia-a-dia de trabalho. De uma forma geral e sem querer fazer uma descrição exaustiva de cobertura regional, é por esta região da Beira até mais a Norte (à Serra de Montemuro) que se vêem estas simples mas muito eficazes peças de vestuário. Se, por um lado temos quase a certeza que não iremos vê-las à venda nas grandes superfícies comerciais e cadeias de franchising, elas cabem no sítio certo…que é na Montanha. Como parte integrante das culturas e gentes serranas, a produção das capuchas de burel é única, tal como de facto são únicos os espíritos alegres e energéticos das pessoas que as vimos fazer e usar!

CAUSA: ajudar na produção e divulgação das capuchas de burel; incentivar o convívio salutar entre as culturas urbanas e as serranas, em favor da valorização de fora e da auto-valorização dos próprios ofícios locais e manuais; fotograficamente registar as pessoas no trabalho, as ferramentas e o riquíssimo contexto estético e social.

Os campos cuidados do Caramulo (Malhapão de Cima & Jueus)

Sem nos deixarmos cair no lugar-comum de que “tudo se está a perder no Interior”, e combatendo as tendências aparentemente impostas pelas reduções dos custos e das despesas da parte do Estado nas Escolas, Cultura, Saúde …, no Interior, há que tomar atenção àquilo que, de facto e na realidade, as pessoas do Interior vão fazendo. A forma como muitos cuidam dos campos, privados ou comuns (como os chamados Baldios), mostra a quem lá vá o contacto estreito com a terra e o património, tratado e acompanhado. Veja-se, em contrapartida, como nas cidades muita propriedade formalmente não abandonada está, de facto, a cair. Não é só no Interior que tal acontece. E, tal como outras coisas nas cidades, no Interior a gestão da terra pode ser magnificamente bela, uma fonte de energia e de interesse cultural, estético e paisagístico.

CAUSA: mostrar, especialmente às populações urbanas, como de facto há muito Interior que é muito bem cuidado, com trabalho e brio que importa proteger; fotograficamente explorar a estética da paisagem local, também captando a sua inserção no todo Serrano, incluindo floresta e árvores.

Os caminhos antigos do Caramulo (Souto Bom – Caramulo)

Tal como a vida na expressão de uma pessoa se vai lendo nas suas rugas (ou na falta delas!), a história de um lugar também se lê nos caminhos que nele existem. Desde os caminhos romanos entre as povoações, também na Serra do Caramulo, até aos caminhos menos antigos por entre as leiras de campos cultivados, a rede de caminhos nesta zona é impressionantemente rica e muito bem mantida. E esta história e rede mistura-se com a modernidade dos novos geradores eólicos (moinhos!), com a antiguidade dos moinhos de água antigos, ou mesmo com a modernidade dos antigos moinhos recuperados no local, juntando-se com a educação. Voltando aos caminhos, são as gentes locais que os vão mantendo, para trabalhar a vinha, o milho, o trigo das suas terras. Se há sulcos bem cavados nos caminhos, fruto dos carros de bois que ali circularam durante séculos, há que os manter a descoberto.

CAUSA: mostrar a rede de caminhos de vários tipos, na região, em conjunção com os seus hábitos rurais; ajudar a divulgar e a preservar os caminhos e esses hábitos; registar fotograficamente o entorno paisagístico, em conjunção com a floresta predominante de carvalhos e castanheiros.

As cabras do Caramulo (Caselho – Caramulo)

Não é só na Heidi que temos as cabras bonitas, brancas e a dar bom leite (para quem for dessa geração, sabe do que falamos). Na Serra do Caramulo o pastoreio tem estado a ser protegido e recuperado, vendo-se várias variedades de cabras. Desde as pessoas que as levam ao monte, como a muito simpática Sra. Maria dos Anjos, à Confraria do Cabrito e da Serra do Caramulo, muitos fazem pela manutenção, negócio e consumo da boa carne caprina. Desde o cabrito no forno até à Chanfana, a gastronomia das Beiras a essas pessoas se deve. E é impressionante ver, ouvir e sentir a energia que destes animais os próprios criadores nos parecem reflectir, com excelente humor e receptividade para com quem aprecia os animais.

CAUSA: difundir os esforços recentes na criação e comercialização do gado caprino, conjuntamente com o tecido social a eles ligados; ajudar a divulgar e proteger a criação do gado caprino, segundo os melhores hábitos de produção e de alimentação local; registar fotograficamente os animais e as pessoas, no seu entorno rural, cultural e social.

A Cerâmica Negra de Molelos (Molelos – Caramulo)

Afinal, o barro em Molelos não é negro! Com a sabedoria de anos, são os oleiros que o transformam, não só na forma, como na cor. O Sr. António Marques é um de entre outros oleiros que, com muito orgulho e suas próprias técnicas, ajudaram e ajudam a fazer voltar-se a estabelecer a Cerâmica de Molelos. Permanece fiel à produção manual das peças, fazendo parecer confundir a pele das suas mãos com o barro, o pano e a água em cima da roda (a única máquina que tem na oficina). Mas consegue dar-lhe uns ares de modernidade, nas formas finais. A maneira como faz os desenhos parece demasiadamente simples para nós pensarmos em pegar numa peça e fazer igual. Está habituado a muitas visitas, de dentro e de fora, na sua oficina pequena mas muito produtiva. Explica os processos, desde a antiga suenga até ao forno que tem na sua olaria. O barro pode ser de lá ou de outras regiões do país, mas são as técnicas, a cor, o brilho e as formas finais que fazem a cerâmica de Molelos.

CAUSA: divulgar a arte da olaria manual, focando na sua produção até ao forno; ajudar a divulgar e proteger a olaria específica de um local, também incentivando as pessoas envolvidas; registar fotograficamente quem os faz, na acção, nos movimentos, na luz do local de trabalho e nas expressões.

A Cestaria, de mãos e dentes (Nandufe – Caramulo)

Em Nandufe, ao lado de Tondela, o Sr. João orgulhosamente mostra e ensina como há 70 anos vai fazendo os seus cestos. Não usa máquinas. Se usa ferramentas de ferro e madeira, outras vai-as fazendo enquanto produz mais um cesto. As outras tem-nas nas mãos e nos dentes. Pega na madeira da infame Acácia Austrália, encontrando uma boa utilidade para a árvore. Prepara-a previamente para as curvas e contra curvas de um cesto, e corta-a em lascas finas e rectas. À média luz da sua oficina, sentado de frente para a porta, recebe com simpatia e conversa o visitante interessado na cestaria. Já deu formação a grupos, principalmente de mulheres, mas sabe que se anda por aí a aprender pelos financiamentos. Vai às feiras de artesanato da região para mostrar o que ainda se faz e como se fez há 70 anos. É o único, na zona, a fazer os cestos. Tem uma memória invejável. E os seus cestos, cheios de sabedoria, perdurarão até quando?

CAUSA: divulgar a arte da cestaria, seguindo velhas técnicas que se estão a perder, centrando na componente humana no pano de fundo; fomentar a divulgação, protecção e ensino destas técnicas, incentivando as pessoas envolvidas; registar fotograficamente quem os faz, em acção, nos movimentos, na luz do local de trabalho e nas expressões.

Nota: Estes textos reflectem unicamente a visão/opinião subjectiva e pessoal dos fotógrafos responsáveis pelos Workshops, justificando porque a consideraram como “causa”.